O legado de Milton D’Amélio

O CCS-SP dá adeus ao seu fundador e ex-mentor, falecido em junho, lembrando que ele atuou em um período importante na história da entidade, quando os corretores lutavam pela consolidação da profissão.

No dia 26 de junho, o Clube dos Corretores de Seguros de São Paulo (CCS-SP) perdeu um dos seus grandes ícones, Milton D’Amélio. Corretor de seguros desde 1964, fundador e ex-mentor (gestão 1990-1992), ele ajudou a construir um capítulo importante na trajetória da entidade ao se empenhar na luta pela consolidação da profissão.

A história do CCS-SP não seria a mesma sem a existência dos irmãos D’Amélio. Antonio e Milton D’Amélio se empenharam lado a lado para constituir a entidade, durante o regime militar, para dar voz aos corretores de seguros, que naquela época não podiam se expressar por meio do seu sindicato. Como fundadores do CCS-SP, ambos ocuparam a mentoria. Antonio D’Amélio, o irmão mais velho, foi o primeiro mentor, cumprindo as gestões 1972/1974 e 1978/1980.

Aglutinamo-nos com a finalidade de poder falar. A época era de repressão e os sindicatos não podiam se pronunciar sem autorização. Com isso, pudemos falar e interferir por conta da qualidade técnica dos corretores”, disse Milton D’Amélio em entrevista concedida à revista Cobertura (ed. 131/2012).

Milton D’Amélio foi eleito mentor quando o CCS-SP atingiu a maioridade, aos 18 anos de existência, em 1990. Sua gestão foi marcada pelo embate da categoria contra o avanço dos bancos na comercialização de seguros. O novo mentor adotou uma postura conciliatória, ajudando a amenizar o impasse.

Trajetória no Clube

Milton D’Amélio recebe o timão do seu antecessor João Leopoldo Bracco de Lima (1990). No fim de seu mandato, ele entrega o timão a Luis López Vázquez, seu sucessor (1992).

Em seu discurso de posse, D’Amélio citou o logo da entidade, composto por três elos que representam o seguro perfeito (corretor, segurador e segurado), para enaltecer o diálogo. “Diálogo em todas as instâncias para que possamos chegar ao entendimento”, disse.

Em sua opinião, a unidade em torno da profissionalização, representatividade, ética e cultura, defesa e vigilância no exercício da atividade ganharam corpo no CCS-SP, culminando com avanços no âmbito do Sistema Nacional de Seguros, e tornando realidade os sindicatos representativos, a Federação Nacional dos Corretores e a representação da categoria no CNSP, Susep e IRB.

Coube a D’Amélio atuar como pacificador no embate entre corretores de seguros e bancos. Sua gestão deu o primeiro passo para promover o entendimento entre os dois segmentos. Em junho de 1991, ele convidou para o almoço do Clube representantes de seguradoras ligadas a bancos, caso de João Regis dos Santos, vice-presidente da Bradesco e ex-superintendente da Susep. 

Na época, algumas instituições bancárias começavam a se retirar da comercialização de seguros, caso do Bradesco. João Régis, então, comunicou na ocasião a decisão do banco de comercializar seguros apenas por meio de corretores independentes.

Na visão de D’Amélio, a convivência entre bancos e corretores vivenciou vários estágios. “Os bancos tiveram seu papel de importância na medida em que proporcionaram aumento de produtividade no seguro e maior divulgação do produto junto ao grande público. No entanto, eles cometeram inúmeras impropriedades”, disse em seu editorial no JCS (ed. 141 – set/91 – então editado pelo CCS-SP).

Segundo ele, o seguro vendido em agências passou a ser um subproduto, repassado ao consumidor como reciprocidade na realização de aplicações financeiras ou empréstimos. “Essa postura gerou descredito para o produto e falta de atendimento adequado para o segurado”, disse. “Por isso, defendo a tese de que a comercialização de seguros é atividade específica do corretor”, acrescentou.

D’Amélio assumiu a mentoria do CCS-SP prometendo aumentar o diálogo com integrantes do setor de seguros. Em fevereiro de 1991, em seu Editorial no JCS, ele comenta a entrada em vigor do Código de Defesa do Consumidor, afirmando que nada mudaria para o corretor, mas sim para o consumidor, que teria mais proteção.

Em setembro daquele ano, a edição bilíngue do JCS (ed. 141) dava destaque à evolução da categoria, que depois do Clube já contava naquela época com seis entidades representativas, incluindo a Fenacor. No jornal, Milton D’Amélio defendeu a criação do Conselho Nacional para o fortalecimento da categoria.

Na sua gestão, Milton D’Amélio também se preocupou com os efeitos da Circular 22, que autorizava a concessão de descontos nos ramos incêndio e lucro cessantes. “Essas modalidades consideradas nobres deixaram de ser negociadas tecnicamente. Hoje, o que fala mais alto é a base percentual a ser usada por quem concederá o seguro. A política de desconto não pode se tornar praxe do mercado. Estamos aviltando nosso próprio sistema de seguros”, escreveu em seu editorial.

No encerramento de seu mandato, quando se preparava para entregar o cargo ao seu sucessor Luis López Vázquez (gestão 1992/1994), ele fez um balanço dos dois anos à frente do CCS-SP.

Nesse período presenciei um importante processo de mudança no setor, a começar pela introdução do CDC, em 1991. O Brasil vive um momento peculiar, depois introduzir o conceito de mercado moderno concedendo mais liberdade à iniciativa privada. A Nação aprovou o impeachment do presidente da República, eleito pelo povo após 30 anos sem eleição direta.

CCS-SP homenageou Milton D’Amélio.

Fica difícil dizer se devemos nos glorificar por tal ato ou nos entristecer por ter falta a liderança que pudesse conduzir o Brasil para a real maturidade e dignidade em nível econômico, político e social. Teremos que, mais uma vez, que nos dotar de paciência e perseverança para colocar o país novamente no ritmo do crescimento.

Serenidade, reflexão e muita coerência deverão ser os dogmas adotados pelos profissionais da área de corretagem de seguros para que o consumidor de hoje possa fazer a divulgação positiva do nosso mercado. Assim, o setor crescerá dentro de critérios firmes e realistas”. (JCS 153 – set/1992).

Uma das bandeiras erguidas pelo mentor Milton D’Amélio foi a da defesa da profissionalização a fim de que os corretores pudessem estar preparados para a competição dos anos 90. “Defendo a tese de que o corretor deve e precisa ser autossuficiente”, disse.

Em fevereiro de 2015, na gestão de Adevaldo Calegari, Milton D’Amélio foi um dos ex-mentores homenageados. “Sou corretor de seguros e vou morrer corretor de seguros”, disse. Essa firmeza de propósito pode ser traduzida em lealdade, a palavra que definiu a sua personalidade e caráter.

Fonte: CCS-SP | Texto: Márcia Alves

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